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A Morte de Deus -- 2011-07-08 - 12:06:37 (Marieta Cristina Dobal Campiglia)

A Morte de Deus

Deus tinha olhos que pareciam de vidro, usava uma manta feita de saco de açúcar que havia encontrado num terreno abandonado perto do cemitério, e nem sempre cheirava bem.

Perambulava com dificuldade entre os que passavam pela calçada de uma grande avenida da cidade porém durante o dia não podia parar e descansar: suas roupas rasgadas e sujas, sua aparência de mendigo; sua dificuldade de bêbado para se movimentar, fariam com que as pessoas se afastassem evitando passar pelo mesmo lugar e rapidamente provocaria a chegada de policiais ou vigias das redondezas.

Ele era discreto e detestava que ficassem de olho nele.

O grande desafio diário de Deus era conseguir comida para passar mais um dia, porque nem sempre tinha a sorte de que alguém percebesse sua fome e lhe desse algo. Havia outros mendigos que também ficavam de olho nele, mas a maioria só queria tirar coisas dos outros, e ele preferia andar por aí sozinho.

Existia no centro da cidade um restaurante cujo dono sensibilizava-se com a fome de Deus. O “Portuga”, como era chamado pelos clientes e empregados; um senhor gordo de calça com suspensórios e sempre com cigarro na mão, a qualquer hora em que Deus aparecesse dava um jeito de dar-lhe algo. Sempre havia um prato de comida, um pão recheado de boas coisas, até mesmo pedaços grandes de carne saborosa já recebera. O homem tinha um bom coração, sem dúvida, e praticamente era a sua salvação.

O problema para Deus era conseguir chegar até o lugar. Por diversas razões, às vezes ele não conseguia. Muitas vezes acabava afastando-se do local por forças maiores (perseguições, agressões, policiais que não o conheciam –já que ir parar na cadeia era coisa do inferno, e isso ele precisava evitar a qualquer custo- assim como a chuva, que o obrigava às vezes a se isolar num lugar distante do restaurante, até parar). Muitas vezes seu corpo doía tanto e suas pernas estavam tão endurecidas, que Deus não conseguia caminhar, e tinha que esperar até voltarem as forças.


Num dia que parecia ser Sábado, Deus andou mais de cinco quilómetros para conseguir chegar até o restaurante. Suas pernas doíam muito mas respondiam à caminhada, e mancando daqui e dali ele deu um jeito de chegar até o local. Sua barriga, roncando absurdamente já adormecera.

Ele enxergava uma enorme cobra que roía suas entranhas –porque obviamente aquela sensação de fome não podia ser produzida por outra coisa- e então tinha que deixar o suor vir, até ficar todo molhado: aí a cobra adormecia, e a sua fome parecia diminuir um pouco. Assim estava nesse Sábado. A tosse era mais um inconveniente, mas pelo menos ela não o detinha na caminhada. Ao chegar ao restaurante, Deus caiu na calçada da porta de trás do local, e ficou como sempre, sentado num lugar mais ou menos escondido, próximo às grandes latas de lixo,até que o “Portuga” o visse e desse um jeito de mandar trazer alguma comida. Então levaria o dia todo para comer aquilo, já que sabia que no seu estado, não poderia comer rápido. Aprendera isso por conta própria.

Mas para azar de Deus, o “Portuga” acabava de ter um infarto. Ele chegara bem na hora, e aos poucos, entendeu o que acontecera: o homem havia caído quando sentado ao caixa, e estava sendo levado às pressas ao hospital, numa ambulância da qual ele só escutava a sirene...

Deus começou a chorar em silêncio, e a cobra do seu estômago foi ficando cada vez maior. Tão grande que acabou devorando-o, por não aceitar o fato de que não lhe dessem comida. E assim, ele sentiu-se triturado pela enorme boca assustadora, até perceber que não sentia já mais nada.

À noite, após tanta confusão e durante o fechamento do estabelecimento, os garçons e o filho do Portuga, que desde a manhã davam um jeito de manter o negócio até a noite para fechar; encontraram Deus da mesma forma que sentara na calçada de trás e desconfiaram que algo estava esquisito. “Ninguém deu comida a ele”, disse um dos funcionários que fora jogar o lixo e acabou chamando vários outros para ver. “Não tem pulso”, disse o filho do “Portuga”, “vamos ter que chamar agora os bombeiros, ou a polícia”.

Um carro de polícia que se encontrava por perto veio ao local, e um policial disse ao outro “veja aí se tem algum documento”. Revistaram seus bolsos, e acharam uma carteira de identidade. O policial, rodeado dos garçons e do "novo Portuga”, "o portuguinha", como diziam agora os outros ao filho do dono, perguntou: “vocês sabem o nome do homem?”, todos disseram que não com a cabeça. “Está aqui : Deus José da Silva”... Deus havia morrido de fome na calçada, no mesmo dia em que seu protetor rico e de bom coração tivera um infarto...

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